Se você range ou aperta os dentes durante a noite, provavelmente já ouviu falar que café “faz mal” para o bruxismo. Mas a relação entre cafeína e bruxismo vai além da xícara de café da manhã: a cafeína está escondida em bebidas que muita gente nem associa ao problema — e entender isso pode ser um passo importante no controle do bruxismo do sono.

A cafeína está em mais lugares do que você imagina
O café é a fonte mais óbvia, mas está longe de ser a única. Um exemplo simples: uma lata de Coca-Cola de 350 ml tem aproximadamente 35 mg de cafeína. Não é uma quantidade enorme perto de uma xícara de café coado (que pode variar de 80 a 100 mg), mas ela soma ao longo do dia — principalmente para quem toma refrigerante à tarde ou à noite sem perceber que está consumindo um estimulante.
Os energéticos vão além: uma lata de 250 ml pode conter cerca de 80 mg de cafeína, o equivalente a uma xícara de café coado em casa. Quando esse consumo acontece perto do horário de dormir — o que é comum entre quem usa energético para “aguentar” estudar ou trabalhar até mais tarde — o impacto sobre o sono tende a ser ainda maior.

“Descafeinado” não é sinônimo de “sem cafeína”
Aqui está um ponto que gera bastante confusão: café descafeinado não é café sem cafeína. A legislação brasileira exige que o produto informe no rótulo que é descafeinado e que passe por análise do teor de cafeína, mas não estabelece um percentual mínimo de remoção rígido e uniforme para todas as marcas — diferente do que muita gente supõe. Na prática, isso significa que a quantidade de cafeína remanescente em um café descafeinado pode variar bastante de marca para marca. Ou seja: trocar o café comum pelo descafeinado reduz a cafeína, mas não necessariamente a zera — e para quem é mais sensível, mesmo essa quantidade menor pode fazer diferença no sono. É mais um detalhe que entra na conta quando se pensa na relação entre cafeína e bruxismo. (Fonte: Portaria SDA nº 570/2022, Ministério da Agricultura.)
Como a cafeína afeta o sono — e por que isso importa para o bruxismo
A cafeína é um estimulante do sistema nervoso central, e é justamente esse efeito sobre o sono que explica a relação entre cafeína e bruxismo. Ela dificulta que o cérebro entre e permaneça nas fases mais profundas do sono, aquelas que realmente restauram o corpo, deixando o sono mais raso e fragmentado. Isso vem acompanhado de mais microdespertares ao longo da noite: pequenas ativações que a pessoa quase não percebe, mas que aumentam a frequência cardíaca e a atividade muscular.
É justamente nesses microdespertares que o bruxismo do sono costuma aparecer. A cafeína não “causa” o bruxismo de forma direta. Ela piora a qualidade do sono, e é esse sono de má qualidade que cria as condições para ranger e apertar os dentes. E isso já acontece com doses bem menores do que se imagina, principalmente quando o consumo é próximo do horário de dormir.
Existe inclusive um levantamento populacional sobre a relação entre cafeína e bruxismo: quem consome mais de 8 cafés por dia tem uma chance 1,5 vez maior de bruxismo do sono. É um consumo alto, sem dúvida. Mas o ponto não é que só quem exagera esteja em risco — é que o efeito é dose-dependente: quanto mais cafeína, de qualquer fonte e em qualquer horário, maior a interferência no sono. Quantidades bem menores que 8 xícaras por dia já são suficientes para fazer diferença.
O que fazer com essa informação
Não se trata de cortar café ou refrigerante de vez, mas de prestar atenção ao horário e à quantidade — e aqui entra um detalhe que ajuda a explicar por que “só não tomar café à noite” às vezes não é suficiente. Segundo a Sleep Foundation, a cafeína tem meia-vida média de cerca de 5 a 6 horas, variando de pessoa para pessoa. Meia-vida é o tempo que o corpo leva para eliminar metade do que foi consumido. Então boa parte da cafeína ainda está circulando no organismo muito depois do horário em que foi consumida.
Por isso, a recomendação geral é parar de consumir cafeína pelo menos 8 horas antes de deitar. Se você costuma dormir às 22h, por exemplo, o ideal é que o último café, refrigerante ou energético do dia seja até por volta das 14h — e quem sente mais sensibilidade à cafeína pode se beneficiar de uma margem ainda maior. Isso vale para café, chá preto, refrigerantes à base de cola, energéticos e, em menor grau, o próprio descafeinado. Pequenos ajustes de rotina como esse fazem parte do que chamamos de higiene do sono, e costumam ser um complemento importante ao tratamento odontológico do bruxismo, que segue sendo o pilar principal para proteger os dentes e aliviar sintomas como dor na mandíbula e dor de cabeça ao acordar.
Se você percebe sinais de bruxismo — desgaste nos dentes, dor na articulação da mandíbula, dores de cabeça frequentes ao acordar — não deixe para depois: agende uma avaliação aqui na clínica. A gente investiga as causas específicas do seu caso, incluindo a relação entre cafeína e bruxismo e outros hábitos, e monta um plano de tratamento sob medida para proteger seus dentes e melhorar a qualidade do seu sono.
